CRÉDITO RURAL

Renegociação de dívidas destrava acesso ao Plano Safra e abre caminho para retomada do crédito no campo

Medida provisória prevê novos prazos, carência, redução de juros e criação de Fundo Garantidor para permitir que produtores regularizem débitos e financiem a próxima safra.

Por Redação AU Publicado em há 8 horas

A medida provisória que estabelece novas regras para a renegociação das dívidas dos produtores rurais foi recebida como um avanço pelo setor agropecuário por permitir que milhares de agricultores recuperem o acesso ao crédito do Plano Safra 2025/2026. O texto é resultado de negociações entre o governo federal e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e busca enfrentar o endividamento agravado pelas perdas provocadas por estiagens, enchentes e outros eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos.

O vice-presidente da FPA, deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), destacou que a proposta não representa perdão de dívidas, mas uma repactuação das obrigações financeiras dos produtores. Segundo ele, a medida reconhece a excepcionalidade da situação vivida pelo setor, permitindo que agricultores recuperem sua capacidade de pagamento sem perder o acesso ao financiamento necessário para manter a produção.

Entre os principais pontos da medida estão a concessão de período de carência para o início dos pagamentos, prazo de até oito anos para quitação dos débitos — podendo chegar a dez anos em regiões afetadas por recorrentes eventos climáticos —, redução das taxas de juros e possibilidade de renovação das garantias apresentadas às instituições financeiras. A expectativa é de que essas mudanças impeçam que produtores permaneçam impedidos de contratar novos financiamentos rurais.

Outro aspecto considerado estratégico é a criação do Fundo Garantidor para operações de crédito rural. O mecanismo deverá reduzir o risco das instituições financeiras, ampliar a oferta de financiamentos e facilitar o acesso dos produtores ao crédito. Segundo a senadora Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da FPA no Senado, a expectativa é de que o fundo entre em operação ainda em agosto, após a definição dos recursos pelo Ministério da Fazenda.

A medida também amplia o alcance da renegociação ao permitir a repactuação de dívidas formalizadas por meio da Cédula de Produto Rural (CPR), modalidade que se consolidou como uma das principais formas de financiamento privado do agronegócio brasileiro. Até então, muitos produtores com operações lastreadas em CPR encontravam dificuldades para renegociar seus compromissos financeiros.

De acordo com Tereza Cristina, mais da metade dos produtores rurais brasileiros enfrenta algum tipo de dificuldade financeira, principalmente em razão das operações realizadas por meio das CPRs. Sem uma solução para essas dívidas, muitos agricultores permaneceriam inadimplentes e impedidos de acessar as linhas de crédito disponibilizadas pelo novo Plano Safra.

Representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária já iniciaram reuniões com bancos públicos e privados para discutir a operacionalização da medida provisória. A expectativa é que, após a publicação das normas complementares, as instituições financeiras passem a analisar rapidamente os pedidos de renegociação, permitindo que os produtores regularizem sua situação antes do avanço da próxima safra.

O tema ganha relevância especialmente no Rio Grande do Sul, onde milhares de agricultores acumulam prejuízos em razão da sucessão de estiagens severas e das enchentes históricas registradas nos últimos anos. O elevado nível de endividamento comprometeu a capacidade de investimento de muitas propriedades, tornando a renegociação uma das principais reivindicações das entidades representativas do setor.

Na avaliação da FPA, embora a medida não contemple todas as demandas apresentadas pelo agronegócio, ela representa um consenso possível entre Congresso e governo. O entendimento é de que a combinação entre renegociação das dívidas, retomada do crédito e criação do Fundo Garantidor poderá trazer maior estabilidade ao sistema de financiamento rural, contribuindo para manter a produção agropecuária, preservar a renda dos produtores e garantir o abastecimento de alimentos nos próximos anos.

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