CLIMA | ALERTA PARA O SUL

Modelos apontam El Niño 2026-2027 com potencial para entrar para a história

Projeções de setembro indicam aquecimento excepcional do Pacífico e possibilidade de o episódio superar grandes eventos das últimas décadas; no Sul do Brasil, cenário aumenta a atenção para chuva excessiva e extremos meteorológicos

Por Redação Publicado em há 8 horas

O El Niño de 2026-2027 caminha para se tornar um dos episódios mais intensos já registrados — e alguns dos principais modelos climáticos indicam a possibilidade de um recorde. Dados atualizados em setembro mostram um aquecimento excepcional das águas do Oceano Pacífico Equatorial, com tendência de fortalecimento até o final deste ano.

De acordo com análise da MetSul Meteorologia, 100% dos membros dos modelos dinâmicos avaliados em setembro projetam que o atual episódio ultrapassará o recorde histórico pela métrica tradicional do Índice Oceânico do Niño (ONI). Quando utilizado o Índice Oceânico Relativo do Niño (RONI), que procura descontar parte da influência do aquecimento global dos oceanos, a probabilidade calculada fica em 98%.

Os organismos internacionais também apontam para um evento excepcional, embora utilizem métricas diferentes. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informa que o El Niño já está estabelecido e deve continuar se fortalecendo. A probabilidade de o fenômeno persistir até fevereiro de 2027 está próxima de 100%. Já a NOAA, agência meteorológica e oceânica dos Estados Unidos, calcula mais de 90% de possibilidade de o episódio atingir a categoria de muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-2027.

Imagem: NOAA/Metsul

Os números observados no Pacífico ajudam a explicar a preocupação. Em agosto, a anomalia da temperatura da superfície do mar chegou a 1,8°C na região Niño 3.4, principal área utilizada para acompanhar o fenômeno, enquanto outras regiões do Pacífico Equatorial apresentaram desvios ainda maiores. A NOAA registrou anomalias superiores a 3°C no Pacífico Equatorial Leste.

No Brasil, o terceiro boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por INPE, Inmet e outros órgãos federais, já apontava no início de setembro probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte entre setembro e novembro.

Modelos projetam um cenário fora da curva

Uma das projeções que mais chama atenção vem do laboratório de dinâmica de fluidos geofísicos da NOAA. Nas simulações atualizadas em setembro, todos os 30 membros do modelo experimental SPEAR indicam que o atual El Niño poderá competir com os episódios mais fortes já observados ou superá-los.

Historicamente, eventos como os de 1982-1983, 1997-1998 e 2015-2016 estão entre os grandes El Niños da era moderna. O episódio atual chama atenção também pela velocidade com que o Pacífico aqueceu.

O pico normalmente ocorre entre novembro e o começo do ano seguinte. Por isso, mesmo com valores já elevados em setembro, os modelos ainda projetam fortalecimento durante os próximos meses.

Há, porém, uma ressalva importante: um El Niño mais forte não significa automaticamente impactos meteorológicos proporcionalmente maiores em todas as regiões. A quantidade e a distribuição da chuva dependem também de outros fatores atmosféricos e oceânicos. Por isso, projeções sazonais indicam aumento ou redução de riscos, e não permitem antecipar individualmente cada temporal, enchente ou período de estiagem.

Sul do Brasil entra no período de maior atenção

Para o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, o desenvolvimento de um El Niño muito forte exige acompanhamento permanente.

Historicamente, o fenômeno favorece maior frequência de chuva no Sul do Brasil, especialmente durante a primavera e o começo do verão. Isso não significa chuva contínua nem que todas as cidades terão volumes acima da média, mas aumenta a possibilidade de períodos muito úmidos e episódios de precipitação intensa.

No Rio Grande do Sul, esse cenário interessa diretamente à agricultura, às Defesas Civis e aos municípios localizados nas bacias dos rios Uruguai, Taquari, Caí e Jacuí. No Alto Uruguai, o comportamento das chuvas durante a primavera será especialmente acompanhado por produtores de grãos, criadores e municípios próximos ao Rio Uruguai e seus afluentes.

O outro lado está na temperatura. O El Niño modifica a circulação atmosférica em escala planetária e pode contribuir para períodos de calor acima da média em diferentes regiões, embora seus efeitos variem bastante conforme a época do ano e a localização.

Fenômeno deve avançar por 2027

A previsão oficial da NOAA divulgada em setembro atribui 100% de probabilidade de manutenção das condições de El Niño nos trimestres setembro-outubro-novembro, outubro-novembro-dezembro e dezembro-janeiro-fevereiro. A probabilidade começa a diminuir durante o outono de 2027 no Hemisfério Sul.

Isso coloca a primavera e boa parte do verão brasileiro sob influência do fenômeno.

Ainda será necessário acompanhar mês a mês a evolução das temperaturas do Pacífico e, principalmente, a resposta da atmosfera. Mas os dados de setembro mudaram o patamar de atenção: o El Niño de 2026-2027 já não é tratado apenas como um evento forte.

Os modelos indicam que ele pode entrar para a história entre os maiores — e possivelmente o maior — desde o início das observações modernas.