Geografia ajuda a entender acesso de mulheres à proteção contra a violência, explica pesquisadora da UFFS - Campus Erechim

Professora Paula Lindo analisa como território, acesso a serviços e políticas públicas entram no debate sobre o enfrentamento ao feminicídio e aponta o que observar nas propostas das eleições de 2026

Por Ascom UFFS Erechim Publicado em há 6 horas

Em períodos eleitorais, temas que atravessam a vida cotidiana ganham espaço nos discursos, debates e programas de governo. O enfrentamento à violência contra as mulheres é um deles. Levantamento publicado pelo jornal Sul21, aponta que o Estado do Rio Grande do Sul registrou 42 feminicídios entre janeiro e junho de 2026. Diante dos números, é necessário que as candidaturas apresentem propostas para proteger a vida das mulheres. Mas como avaliar essas propostas? O que deveríamos observar quando uma candidatura afirma que pretende enfrentar a violência contra as mulheres? 

É a partir dessa perspectiva que a professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) - Campus Erechim, Paula Lindo, propõe uma reflexão sobre o enfrentamento ao feminicídio e sobre as políticas públicas voltadas às mulheres. Paula é Geógrafa e professora dos Programas de Pós-Graduação em Geografia e Interdisciplinar em Ciências Humanas da Universidade e pesquisa as relações entre gênero, território, cuidado e políticas públicas.

Créditos da Foto: Paula Lindo

Em ano eleitoral, a pesquisadora chama atenção também para uma questão que pode orientar a população na análise das propostas apresentadas pelas candidaturas: mais do que observar a quantidade de ações prometidas, é preciso perguntar se elas são capazes de constituir uma rede de proteção que efetivamente chegue às mulheres.

UFFS – Como e por que a Geografia pode contribuir para compreender a violência contra as mulheres?

Paula Lindo – A violência não acontece em um espaço abstrato. Mulheres vivem em territórios concretos e possuem condições diferentes para buscar ajuda e proteção. Uma mulher que vive na Região Metropolitana, outra que mora na periferia de uma cidade média e uma mulher residente em um pequeno município ou em uma comunidade rural não encontram necessariamente as mesmas possibilidades de acesso aos serviços públicos.

Onde está o serviço especializado mais próximo? Existe transporte para chegar até ele? Há atendimento de saúde e assistência social? Para onde uma mulher pode ir se não puder retornar para casa? Ela possui renda? E seus filhos? O agressor será efetivamente afastado? Quem acompanhará essa mulher depois da denúncia?

Essas são questões sobre violência de gênero, mas são também questões geográficas.

UFFS – Então, a existência de uma política pública não significa necessariamente que ela esteja acessível a todas as mulheres?

Paula – Exatamente. A Geografia nos ajuda a compreender que a existência formal de um direito ou de uma política pública não significa que todas as pessoas consigam acessá-los da mesma maneira. Distância, localização, mobilidade, renda, redes de cuidado e distribuição dos serviços pelo território interferem na possibilidade concreta de buscar proteção.

Podemos, portanto, ter políticas públicas existentes e, ao mesmo tempo, vazios territoriais de proteção.

UFFS – Em um ano eleitoral, o que a população deveria observar quando uma candidatura apresenta propostas de enfrentamento à violência contra as mulheres?

Paula – Não existe uma política isolada capaz de enfrentar um problema tão complexo. Por isso, talvez seja mais importante observar se as propostas apresentadas conseguem construir uma rede de proteção do que simplesmente contabilizar quantas ações são prometidas.

Um primeiro aspecto é o orçamento. Políticas públicas precisam de financiamento estável. A prioridade atribuída à vida das mulheres não aparece somente nos discursos: ela também aparece nas escolhas orçamentárias e na capacidade de manter equipes, serviços e estruturas funcionando.

Também precisamos olhar para a abrangência territorial. Uma política pode funcionar muito bem em determinada cidade e permanecer inacessível para mulheres que vivem a dezenas ou centenas de quilômetros de um serviço especializado. Uma proposta precisa considerar pequenos municípios, periferias e áreas rurais.

UFFS – E quais áreas precisam estar envolvidas nessa rede de proteção?

Paula – Violência contra as mulheres não é um problema exclusivo da Segurança Pública. Saúde, Assistência Social, Educação, Justiça, Defensoria Pública, habitação e políticas de trabalho e renda precisam atuar de maneira articulada.

Uma mulher em situação de violência não chega às instituições dividida em setores administrativos. Ela chega com uma vida que precisa continuar.

UFFS – Você também destaca a prevenção. O que significa pensar em prevenção nesse contexto?

Paula – Prevenção não existe sem educação. Enfrentar o feminicídio também significa discutir relações de gênero, formar profissionais capazes de reconhecer e acolher situações de violência e desenvolver ações de responsabilização e reflexão com homens autores de violência.

Uma política que atua apenas depois da agressão estará sempre chegando tarde a alguma parte do problema.

Romper uma relação violenta não depende apenas de uma decisão individual. Muitas vezes exige renda, moradia, transporte, inserção no trabalho, proteção e condições para cuidar dos filhos.

Não podemos exigir que uma mulher abandone uma situação de violência sem perguntar quais condições materiais a sociedade e o Estado oferecem para que ela consiga fazer isso com segurança. Então tmbém é necessário observar se as propostas consideram a autonomia das mulheres.

UFFS – Por que a produção de dados também deve fazer parte das políticas de enfrentamento à violência?

Paula – Quem pesquisa políticas públicas sabe que aquilo que conseguimos enxergar depende também daquilo que conseguimos registrar. Dados orientam diagnósticos, definição de prioridades, distribuição de recursos e formulação de políticas.

Costumo dizer às minhas estudantes: aquilo que o Estado não registra também corre o risco de permanecer invisível para a política pública.

Precisamos produzir dados qualificados que permitam compreender não apenas quantas mulheres são vítimas de violência, mas também quem são essas mulheres e onde vivem. Raça, renda, idade, deficiência, território, ruralidade e outras desigualdades ajudam a revelar que as possibilidades de acessar proteção também são desiguais.

UFFS – Então, qual pergunta deveria orientar o cidadão ao analisar propostas de enfrentamento à violência contra as mulheres nestas eleições?

Paula – Podemos fazer várias perguntas: há orçamento? A política chegará aos pequenos municípios, periferias e áreas rurais? Os diferentes serviços atuarão de maneira integrada? Existem propostas de prevenção e educação? São oferecidas condições para ampliar a autonomia das mulheres? Há compromisso com a produção de dados que permitam conhecer as desigualdades existentes?

A Geografia nos ensina que direitos, serviços e políticas públicas também possuem localização, distância, escala e desigualdades de acesso.

Entre a existência formal de um direito e uma mulher concreta que precisa acessá-lo existe o território.

Por isso, diante de qualquer proposta eleitoral de enfrentamento ao feminicídio, talvez uma das perguntas mais importantes seja também uma das mais simples: onde está a proteção? E, principalmente, ela conseguirá chegar a todas as mulheres que precisam dela antes que seja tarde demais?