Fiocruz vai produzir medicamento de alto custo para esclerose múltipla e ampliar acesso pelo SUS

Produção nacional da cladribina oral promete reduzir custos, fortalecer o tratamento de pacientes com formas graves da doença e levar mais esperança e qualidade de vida a milhares de brasileiros.

Por Redação/Agência Brasil Publicado em 21/05/2026 21:43 - Atualizado em 21/05/2026 22:01

Uma notícia que representa esperança, acesso ao tratamento e mais qualidade de vida para milhares de brasileiros que convivem diariamente com a esclerose múltipla acaba de ganhar força no país. O medicamento de alto custo cladribina oral, utilizado no tratamento das formas mais agressivas da doença, passará a ser produzido no Brasil pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ampliando o acesso dos pacientes ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A medida promete reduzir significativamente os custos de aquisição da medicação e permitir que um número ainda maior de pessoas tenha acesso a uma terapia considerada uma das mais inovadoras no combate à doença.

Conhecido comercialmente como Mavenclad, o medicamento foi incorporado ao SUS em 2023 para pacientes com esclerose múltipla remitente-recorrente altamente ativa — forma da doença marcada por surtos frequentes e rápida progressão, mesmo com o uso de terapias convencionais.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Hoje, o custo médio do tratamento chega perto de R$ 140 mil por paciente ao longo de cinco anos. A expectativa é de que a produção nacional ajude a tornar o fornecimento mais sustentável e acessível dentro da rede pública de saúde.

Embora cerca de 3,2 mil brasileiros apresentem a forma mais agressiva da doença, estima-se que mais de 30 mil pessoas convivam com a esclerose múltipla remitente-recorrente no país — o tipo mais comum da enfermidade.

A esclerose múltipla é uma doença crônica, degenerativa e sem cura, que afeta o cérebro e a medula espinhal. Os sintomas variam de pessoa para pessoa e podem evoluir de forma lenta ou rápida. Em casos mais severos, a doença pode provocar perda de movimentos, dificuldades cognitivas, paralisia e até cegueira, impactando profundamente a autonomia e a qualidade de vida dos pacientes.

Nesse cenário, a cladribina representa um avanço importante. O medicamento é o primeiro tratamento oral de curta duração com efeito prolongado no controle da doença, reduzindo a atividade inflamatória e ajudando a frear a progressão da esclerose múltipla. O impacto positivo foi tão relevante que a medicação passou a integrar a Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde.

Resultados recentes apresentados no Congresso Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla mostraram avanços expressivos entre os pacientes que utilizaram o medicamento. Estudos apontaram redução das lesões neuronais em até dois anos de acompanhamento. Além disso, 81% dos pacientes mantiveram a capacidade de caminhar sem apoio, enquanto mais da metade não precisou recorrer a outros medicamentos complementares.

A produção nacional será viabilizada por meio de uma parceria entre o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), da Fiocruz, a farmacêutica Merck — responsável pelo medicamento — e a indústria química-farmacêutica Nortec.

Segundo a diretora de Farmanguinhos, Silvia Santos, este será o primeiro medicamento voltado ao tratamento da esclerose múltipla produzido pelo instituto.

Ela destaca que a iniciativa fortalece o SUS e amplia o acesso da população a terapias modernas produzidas em território nacional. “É um caminho importante para transformar políticas públicas em cuidado real para quem mais precisa”, afirmou.

O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, ressaltou que acordos desse tipo também fortalecem a indústria nacional da saúde, estimulam a geração de empregos especializados e ajudam a reduzir os custos de tratamentos de alta complexidade sem comprometer a qualidade dos medicamentos oferecidos à população.

Além da cladribina, a Fiocruz mantém outras parcerias em andamento com a Merck para produção de terapias voltadas à esclerose múltipla e medicamentos destinados ao tratamento da esquistossomose infantil.

Para milhares de pacientes e famílias que enfrentam diariamente os desafios da esclerose múltipla, a produção nacional do medicamento representa mais do que um avanço científico: simboliza esperança, dignidade e a possibilidade de um futuro com mais autonomia e qualidade de vida.