AQUI NÃO!
Facções gaúchas resistem à entrada de grupos nacionais, mas mantêm vínculos no tráfico
Episódios de violência em Porto Alegre expõem singularidade do crime organizado no RS, onde PCC e CV não dominam territórios, mas influenciam o mercado ilegal.
Na manhã de 17 de janeiro de 2016, o repórter e documentarista Renato Dornelles chegou ao bairro Bom Jesus, na zona leste de Porto Alegre, e encontrou ruas isoladas pela Brigada Militar. Aos 51 anos, com quase três décadas de experiência no jornalismo policial, não se surpreendeu com a violência do local, mas sim com o silêncio. Uma cabeça humana havia sido deixada em uma caixa de papelão, enrolada em um edredom com a mensagem “Bala nos Bala”.
A cena marcaria o início de uma guerra entre a facção Bala na Cara e um grupo rival que ficaria conhecido como Anti-Bala. A disputa, que começou no sistema prisional e se espalhou pelas ruas da capital e municípios vizinhos, elevou Porto Alegre ao ranking das cidades mais violentas do mundo em 2016 e 2017. Apesar da brutalidade, o episódio revelava um aspecto particular do crime organizado no Rio Grande do Sul: a ausência do domínio de facções nacionais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
Na quinta-feira (28), uma força-tarefa da Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo deflagrou operações contra um esquema milionário do PCC, que usava fundos de investimentos e cerca de mil postos de combustíveis em dez estados — entre eles o Rio Grande do Sul. Mesmo assim, não há indícios de presença consolidada do grupo no território gaúcho. O mapa das facções no país, publicado pelo jornal O Globo em agosto, mostra PCC presente em 25 estados e o CV em 26, mas ambos sem atuação consolidada no RS.
Essa peculiaridade, comparada por alguns especialistas ao chimarrão e à rivalidade Gre-Nal, não significa mais tranquilidade para os gaúchos. Facções locais, como Bala na Cara e Manos, reproduzem práticas violentas semelhantes às de grandes organizações, envolvendo tráfico de drogas, roubos e assassinatos. “Podem chegar a extremos de violência iguais ou até superiores aos de seus congêneres nacionais”, avalia a socióloga Marcelli Cipriani, doutora pela UFRGS e autora do livro Os coletivos criminais de Porto Alegre.
Segundo a pesquisadora, a ausência de domínio territorial não afasta a influência de PCC e CV no Estado. “Esses grupos fazem parte da rede de abastecimento de mercadorias ilegais para o Rio Grande do Sul”, explica. A partir de 2017, as facções gaúchas teriam se alinhado com as nacionais: os Manos ao PCC, e o Bala na Cara ao CV. Dessa forma, mesmo sem controle direto, as grandes organizações “regulam as cadeias de valor da droga que chega a Porto Alegre”.
As conexões entre criminosos locais e nacionais começaram a ser observadas no início dos anos 2000, em ações conjuntas de assaltos e, posteriormente, no narcotráfico. Hoje, essas parcerias se manifestam em redes de cooperação que mantêm o fluxo de drogas, armas e dinheiro, evidenciando que, embora o Rio Grande do Sul resista a uma ocupação direta, não está imune à lógica do crime organizado que domina o país.