Entre mitos e curas milagrosas, redes sociais desafiam a medicina

Mais da metade da população busca informação sobre saúde em plataformas digitais; influenciadores minam confiança em médicos

Por Gustavo Rodrigues Publicado em 06/04/2026 21:57 - Atualizado em 07/04/2026 15:12

Mais da metade dos brasileiros recorre às redes sociais para buscar informações sobre doenças e assuntos de saúde. A pesquisa Datafolha “Percepção da população brasileira sobre doenças crônicas”, divulgada este ano, ouviu 2.007 pessoas com mais de 16 anos e identificou que 53% usam essas plataformas como fonte de consulta. Entre os mais jovens, o índice chega a 66%.

O Google é o principal canal consultado (38%), mas fica atrás de “hospital/clínica” (42%) e “médico de confiança ou do postinho” (41%), segundo o levantamento apresentado no seminário Limitações das Políticas Públicas para Doenças Crônicas.

Os dados preocupam quando são analisados junto aos resultados da pesquisa TIC Domicílios, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), realizada no ano passado.

O levantamento mostrou que apenas 52% dos usuários de internet brasileiros verificam as informações encontradas no ambiente digital. Entre pessoas com ensino superior, esse percentual sobe para 80%. Já entre aqueles com ensino fundamental, cai para 31%.

Foto: Freepik

Desinformação compromete tratamentos

Com a internet cada vez mais presente no cotidiano, profissionais da saúde enfrentam uma concorrência desleal com a desinformação sobre soluções “milagrosas” sem embasamento científico.

As orientações de um cardiologista sobre mudanças graduais no estilo de vida podem ser ignoradas se o paciente tiver acesso a conteúdos de influenciadores que promovem dietas extremas, por exemplo.

Quando o médico ou a equipe de saúde não consegue convencer o paciente de que a informação da internet está incorreta, a adesão ao tratamento fica comprometida. Uma das razões para isso acontecer, segundo a neurociência, é que, de forma simplificada, o cérebro humano busca economizar energia e prefere informações mais fáceis e acessíveis.

A desinformação explora essa tendência ao oferecer caminhos de menor esforço: pílulas “mágicas” para emagrecimento, dietas que validam hábitos prejudiciais, produtos que prometem resultados rápidos sem mudanças de comportamento.

Venda de tratamentos sem comprovação científica


Parte dos “milagres” oferecidos on-line com mais frequência são supostas curas para o câncer, conforme estudo desenvolvido por pesquisadores da City University of London, em estudo publicado em 2024.

Nos Estados Unidos, mais de 50% dos adultos viram desinformação sobre câncer em redes sociais, segundo levantamento do Medscape. Entre pacientes oncológicos, o índice sobe para 71%.

No Brasil, a Anvisa suspendeu mais de 140 produtos emagrecedores entre 2022 e 2024. Em outubro de do ano passado, a agência proibiu a venda e propaganda dos “chips da beleza”, implantes hormonais estéticos sem comprovação científica. Entre 2023 e 2024, a agência baniu 1.500 pomadas capilares. Mesmo com as proibições, produtos semelhantes – ou até os mesmos – continuam circulando em redes sociais por meio de influenciadores.

Após declínio, mobilização nacional eleva cobertura vacinal


Outro reflexo da desinformação observado no Brasil foi a queda da cobertura vacinal. Em 2023, nenhuma vacina do calendário nacional atingiu as metas em todos os estados. Para o sarampo, apenas quatro estados alcançaram a meta de 95% para a primeira dose naquele ano, segundo dados do Instituto Butantan.

O cenário começou a mudar em 2024. O Brasil registrou aumento na cobertura de 15 das 16 vacinas do calendário nacional em 2025, conforme dados do Ministério da Saúde. A reversão da tendência resultou da retomada do Programa Nacional de Imunizações (PNI), com mobilizações nacionais e garantia de abastecimento.

A vacinação contra pólio cresceu 17% entre 2022 e 2024. A tríplice viral aumentou quase 40% no mesmo período. O número de municípios acima de 95% de cobertura da segunda dose da tríplice viral cresceu 180%, passando de 855 em 2022 para 2.408 em 2024.

Entre meninas de 9 a 14 anos, a cobertura da vacina contra HPV chegou a 82% em 2024. Mesmo fora dessa faixa etária, o médico obstetra desempenha um papel importante na orientação sobre prevenção do câncer de colo uterino durante consultas de pré-natal e ginecológicas.

Já entre meninos também com idades de 9 a 14 anos, o índice de vacina contra HPV chegou a 67%. Mais de 1 milhão de doses foram aplicadas nas escolas no primeiro semestre deste ano, segundo os boletins periódicos do Ministério da Saúde.

Mitos sobre Alzheimer e obesidade persistem


A pesquisa Datafolha revela, ainda, que oito em cada dez brasileiros (82%) consideram que a obesidade é uma doença, percentual menor que os 97% que reconhecem o diabetes como doença e os 96% que identificam o Alzheimer dessa forma.

Mas há contradições: 45% das pessoas acreditam que quem tem obesidade não emagrece por falta de “força de vontade”. Mesmo entre quem considera a obesidade uma doença, 40% pensam assim. Um quarto dos entrevistados (26%) acredita, incorretamente, que após emagrecer a pessoa está curada e não precisa mais de acompanhamento médico.

Sobre o Alzheimer, 68% dos entrevistados acreditam que a perda de memória é natural do envelhecimento. Outros 43% concordaram que a doença acontece apenas em quem é bem mais velho, com 75 a 80 anos, e 53% acreditam que o Alzheimer afeta só a memória.

Na verdade, o Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que prejudica várias funções do cérebro. Além da memória, causa problemas de orientação, irritabilidade e outras alterações de comportamento, como informa o Ministério da Saúde.

Periferias e favelas concentram maior vulnerabilidade


Um estudo do Instituto Data Favela divulgado em 2024 revelou que 94 milhões de moradores de periferias e favelas brasileiras admitem já ter acreditado em informação ou notícia que depois descobriu ser falsa. A pesquisa apontou que a desinformação impacta até a saúde mental da classe trabalhadora.

Artigo publicado na revista Asklepion, este ano, confirma que fatores sociodemográficos como escolaridade, renda, idade e raça influenciam a suscetibilidade a informações enganosas. A literatura científica aponta que a literacia em saúde funciona como fator protetivo. Indivíduos com menor acesso a fontes confiáveis e com níveis reduzidos de alfabetização em saúde apresentam maior propensão a acreditar e compartilhar notícias falsas e, com isso, colocam-se em risco.

Iniciativas governamentais e acadêmicas tentam frear epidemia de desinformação


O governo federal lançou em outubro de 2023 o programa “Saúde com Ciência”, coordenado por uma força-tarefa que reúne Ministério da Saúde, Secretaria de Comunicação Social, Advocacia-Geral da União, Controladoria-Geral da União, Ministério da Justiça e Segurança Pública e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

A iniciativa disponibiliza canal de checagem de informação, materiais com informações fidedignas para compartilhamento, Disque Saúde 136 e um número de WhatsApp (61 99381-8399) para denúncias. O programa também mantém o canal Falar, específico para envio de conteúdo para análise.

Para o “outro lado”, a Fiocruz e a Universidade Federal Fluminense (UFF) lançaram em março de 2024 um guia para profissionais de saúde sobre como enfrentar a desinformação. O material enfatiza que “os sujeitos afetados pela desinformação são complexos, possuem crenças, valores e estão inseridos em um contexto próprio”.

O World Economic Forum classificou a desinformação no topo dos riscos globais em 2024. O relatório sinalizou que “os riscos interligados de informações falsas e desinformações impulsionados pela Inteligência Artificial (IA), bem como a polarização social, dominam o panorama de riscos para 2024”.