Aula inaugural de Psicologia da URI debate limites entre sofrimento e diagnóstico

Especialistas refletem sobre saúde mental, alertam para a medicalização da vida e destacam a importância da escuta qualificada na prática clínica.

Por Ascom URI Publicado em há 1 horas

O Curso de Psicologia da URI realizou na segunda-feira, 30, a sua aula inaugural. A programação, desenvolvida no Auditório, contou com a palestra da professora do curso, Cassandra Cardoso, que falou sobre “Quando o sofrimento vira diagnóstico”, seguida da fala da médica psiquiatra Mariusca Rachevski, professora do Curso de Medicina da Universidade, com o tema “Do sofrimento psíquico ao diagnóstico: entre a escuta e a classificação”. O evento foi apresentado como um espaço de debate sobre temas atuais, considerando o aumento de diagnósticos em saúde mental e possíveis dificuldades contemporâneas na vivência do sofrimento.

Na primeira palestra, a professora Cassandra destacou que “o diagnóstico não é o fim, mas o começo da prática clínica”, ao abordar seu papel como ferramenta na escuta profissional. A docente também chamou atenção para riscos como a banalização e o uso indiscriminado de classificações, apontando que o diagnóstico “deveria ser como um farol, mas pode acabar se tornando um holofote”. Mencionou, ainda, as mudanças nos sistemas classificatórios, como DSM e CID, com indicação de uma transição de modelos categóricos para dimensionais, que consideram níveis e espectros na compreensão do sofrimento psíquico.

Já a professora Mariusca Rachevski trouxe reflexões sobre o sofrimento como experiência humana, destacando que “o sofrimento, por si só, não é um diagnóstico”. A psiquiatra também ressaltou que “nem todo sofrimento precisa de diagnóstico, mas todo sofrimento precisa ser reconhecido e validado”. Ao tratar dos critérios clínicos, apontou elementos como intensidade, duração e impacto na funcionalidade, indicando que o diagnóstico poderia ser considerado quando o sofrimento “deixa de ser transitório e passa a limitar a vida”.

O debate abordou, ainda, desafios como a medicalização da vida, o aumento de autodiagnósticos e a necessidade de escuta qualificada. As palestras convergiram ao indicar o diagnóstico como ferramenta de cuidado, sem substituir a compreensão da singularidade do sujeito. Foram levantadas, ao final, reflexões sobre atualizações nos manuais diagnósticos e a necessidade de acompanhamento contínuo, considerando o caráter dinâmico da prática clínica.