FRINAPE 60 ANOS | ESPECIAL TRAJES DA CORTE

“Origens”: traje da Princesa Afro-brasileira celebra ancestralidade e tradição na Frinape 2026

Tauana Marina Satonino é a primeira integrante da Corte da Frinape 2026 a ter seu traje apresentado. A criação celebra as raízes, a história e a identidade afro-brasileira, dando início à série que revelará os significados das vestimentas oficiais da feira.

Por Redação/Maria Lúcia Carraro Smaniotto Publicado em há 1 horas

Em 2026, a Frinape celebra 60 anos de história reafirmando seu papel como a maior feira multissetorial do Alto Uruguai e uma das mais importantes do Rio Grande do Sul. Mais do que um espaço de negócios, inovação e entretenimento, a feira também valoriza a história, a cultura e as tradições que formam a identidade de Erechim.

A Corte da Frinape tem a missão de representar a feira e o município nos mais diversos eventos oficiais. Seus trajes constituem um dos principais símbolos dessa representação, traduzindo, por meio da moda, a riqueza cultural das etnias que contribuíram para a formação de Erechim, dos povos originários e da tradição gaúcha.

Para a edição comemorativa dos 60 anos, o traje oficial da Rainha foi desenvolvido especialmente para representar a grandiosidade da Frinape e a história de Erechim. Os trajes das Princesas Étnicas, da Princesa Nativa e da Prenda foram concebidos e confeccionados sob a responsabilidade de suas respectivas etnias, comunidades e instituições representativas, preservando a identidade, os símbolos, os costumes e as tradições de cada cultura.

Cada criação é resultado de pesquisa, estudo e dedicação. Cores, tecidos, bordados, grafismos, acessórios e ornamentos foram cuidadosamente escolhidos para representar elementos históricos e culturais que preservam a memória e valorizam a diversidade que caracteriza Erechim e a Frinape.

A partir desta terça-feira, 3 de novembro, o AU Online inicia uma série especial de reportagens que apresentará, um a um, os trajes oficiais da Corte da Frinape 2026. Em cada publicação, os leitores poderão conhecer os detalhes, as inspirações e os significados de cada criação, desde a escolha das cores e dos tecidos até os bordados, símbolos e ornamentos que representam a riqueza cultural de Erechim. Mais do que revelar a beleza das vestimentas, a série pretende contar as histórias e valorizar as tradições dos povos que ajudaram a construir a identidade do município, em uma homenagem aos 60 anos da Frinape.

Princesa Afro-brasileira: Tauana Marina Satonino

Traje: "Origens"

O traje da Princesa Afro-brasileira da Frinape 2026, Tauana Marina Satonino, foi concebido para homenagear uma história que, por muito tempo, permaneceu invisibilizada, mas que sempre esteve presente na formação cultural, social e econômica do Rio Grande do Sul: a história do povo afro-gaúcho. Inspirado no conceito "Origens", o traje reconhece a presença, a identidade e a contribuição dos afrodescendentes na construção da cultura sul-rio-grandense, valorizando heranças de resistência, ancestralidade e pertencimento.

Divulgação

A história da população negra no Rio Grande do Sul é marcada pela tentativa de apagamento histórico, pelas promessas de liberdade durante as revoluções e pela violência da escravidão nas charqueadas. Ao mesmo tempo, é uma história de resistência e de profunda contribuição para a formação da identidade gaúcha. O conceito do traje busca desconstruir a ideia de um estado formado exclusivamente pela imigração europeia, evidenciando que o Rio Grande do Sul também foi construído pelos braços, pelas mentes e pelos corações negros.

Criado por Monique Rosset e confeccionado pelo Ateliê Babu Gai, o traje apresenta uma releitura sofisticada da saia e da bata tradicionalmente utilizadas pelas mulheres negras, preservando sua essência e transformando-a em uma composição contemporânea. Cada detalhe foi cuidadosamente estudado para representar elementos presentes na cultura afro-gaúcha e em sua influência sobre o cotidiano do Estado.

O principal destaque é o Pala Gaúcho, representado pela manta. Símbolo marcante da cultura gaúcha e de origem indígena, ele ganha uma nova leitura ao remeter aos tecidos tradicionais africanos conhecidos como Rabal, Alaká e Aso Oke, denominação utilizada pelo povo Iorubá. Produzidos artesanalmente em teares, esses tecidos simbolizam prestígio, ancestralidade e identidade cultural. Essa tradição foi trazida ao Brasil e permanece viva entre os afrodescendentes. Adaptado ao clima do Sul, o pala tornou-se proteção indispensável nas lidas do campo e nas batalhas, incorporando-se também ao cotidiano da população negra.

Os grafismos africanos estampados no traje representam diferentes povos que chegaram ao Brasil, entre eles bantos, nagôs, jejes e angolanos. Pela força do trabalho dessas populações, os pampas, as estâncias e as cidades foram transformados. A mão de obra negra sustentou o ciclo econômico do charque e teve papel decisivo na formação demográfica, econômica e cultural do Rio Grande do Sul.

Outro elemento de grande significado é o turbante, símbolo da herança afro-diaspórica. Adaptado aos tecidos e às possibilidades disponíveis em cada época, ele permanece como uma expressão de resistência histórica, identidade e valorização cultural. As rendas presentes na composição fazem referência às vestimentas utilizadas nas religiões de matriz africana, representando espiritualidade, conexão ancestral e respeito às tradições. O Rio Grande do Sul abriga uma das mais expressivas presenças dessas religiões no Brasil, entre elas Umbanda, Candomblé e Batuque.

Os adornos confeccionados artesanalmente com sementes conhecidas como Lágrima de Nossa Senhora (Coix lacryma-jobi) completam a composição. Originária da Ásia tropical, essa planta chegou ao Brasil durante o período colonial e adaptou-se facilmente ao clima gaúcho. Suas sementes são utilizadas há gerações por benzedeiras e comunidades tradicionais na confecção de terços e guias de proteção, simbolizando acolhimento, cura, purificação e a convivência entre a fé católica e as religiões de matriz africana.

O traje também celebra a presença da cultura afro-gaúcha na culinária, no vocabulário, na música e nas manifestações populares. A percussão e a batucada, utilizadas como formas de resistência nas charqueadas e senzalas, influenciaram ritmos tradicionais como o fandango, o vanerão e a milonga. Essa herança permanece viva e presente no cotidiano dos gaúchos, reafirmando que a cultura afro-brasileira constitui parte essencial da identidade do Rio Grande do Sul.
Mais do que um traje oficial, "Origens" é um tributo à memória, à resistência e à riqueza cultural do povo afro-gaúcho, reconhecendo sua contribuição para a construção da história de Erechim, do Alto Uruguai e do Rio Grande do Sul.

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