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Economia
Governo anuncia "Renda Cidadã" o novo sucessor do Bolsa Família
Recursos para esse novo programa virão de duas fontes: precatórios e Fundeb.
Agência Brasil
por  Agência Brasil
28/09/2020 13:13 – atualizado há 56 segundos
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O governo apresentou nesta segunda-feira (28) o programa Renda Cidadã, reformulação do Bolsa Família (e substituto do planejado e sepultado Renda Brasil), que será o marco social da gestão do presidente Jair Bolsonaro. Para viabilizar o novo programa, foi proposto um rearranjo orçamentário incluído na PEC Emergencial, que está tramitando no Senado.

O senador Márcio Bittar (MDB-AC) explicou que os recursos para esse novo programa virão de duas fontes: precatórios e Fundeb.

Pelo desenho, o programa terá uma verba adicional de R$ 25 bilhões em relação ao Bolsa Família, cuja proposta de orçamento para 2021 é de R$ 34,9 bilhões. Apesar desse aporte extra, o benefício médio não crescerá muito – deve ficar entre R$ 200 e R$ 300 no primeiro ano. A expectativa é de ampliar o alcance do programa – hoje, o Bolsa atende a 14,2 milhões de famílias.

O Renda Cidadã já vinha sendo discutido entre o Executivo e as principais lideranças partidárias nas últimas semanas, mas não havia acordo para o anúncio. Os parlamentares pressionavam pela apresentação de qualquer proposta, que permitisse a retomada da discussão do tema.

Renda Cidadã é alternativa ao Renda Brasil

O anúncio do Renda Cidadã veio em momento oportuno. Apesar de a agenda social nunca ter sido uma prioridade para a gestão Bolsonaro, o presidente vinha há tempos pressionando a equipe a criar ou remodelar programas para formar um novo que tivesse a cara do governo.

Isso se tornou uma prioridade para o governo após as boas avaliações do auxílio emergencial, benefício de R$ 600 pago aos informais e vulneráveis durante a crise do coronavírus. O sucesso dessa ação foi tanto que após sucessivas prorrogações, a ajuda – que expôs milhões de invisíveis, como ressaltou em mais de uma ocasião o ministro da Economia, Paulo Guedes – será mantida até o final do ano, com mais quatro parcelas de R$ 300.

O carro-chefe, inicialmente, seria o Renda Brasil, mas o próprio Bolsonaro sepultou o programa. Para ser viável, o Renda Brasil exigiria a fusão de outras ações e medidas severas, como o congelamento de aposentadorias e pensões. Isso desagradou muito Bolsonaro, que declarou reiteradamente que "não tiraria dos pobres para dar aos paupérrimos".

Além disso, indefinições em relação ao valor médio a ser pago no novo programa de transferência de renda atrasaram esse anúncio. Inicialmente, segundo noticiou o jornal O Estado de S.Paulo, a proposta teria um benefício médio de R$ 247, o que desagradou o presidente Bolsonaro, que esperava um valor superior a R$ 300.

A preocupação da equipe econômica, comandada por Paulo Guedes, era obter uma bolsa mensal superior ao que era desembolsado pelo Bolsa Família (em torno de R$ 190), mas que não comprometesse o equilíbrio das contas públicas, já que não há margem fiscal para expansão de gastos.

Revisão de programas estava no radar da equipe econômica

A discussão para a ampliação do Bolsa Família e transformação em Renda Brasil sempre passou pela revisão de programas que eram considerados ineficientes pela equipe econômica. E isso passou a incomodar muito o presidente Jair Bolsonaro, que encerrou as discussões sobre o programa.

Inicialmente, os principais “alvos” da equipe econômica eram o abono salarial, o seguro-defeso, o Farmácia Popular e o salário-família, que seriam fundidos ao Bolsa Família para viabilizar o novo programa.

Reportagem da Gazeta do Povo já havia mostrado que a unificação apenas do Bolsa, abono e seguro-defeso renderia um valor anual em torno de R$ 50 bilhões, com base no orçamento de 2019, que contava com verbas extraordinárias para esses programas.

Esse valor, embora superior ao orçamento do Bolsa Família, poderia ser insuficiente a depender da quantidade de beneficiários que fossem integrados ao novo programa. Além da questão orçamentária, também há um forte componente político na questão: o programa precisa passar pelo crivo do Congresso.

Bolsa Família era marco da gestão petista

O Bolsa Família também nasceu da junção de outras políticas públicas já existentes. Criado em 2003, no primeiro ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a programa unificou políticas criadas na gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB): bolsa escola, bolsa alimentação, auxílio-gás e o programa nacional de acesso à alimentação. O objetivo principal era de atender famílias em condição de pobreza e extrema pobreza.

Modificado ao longo dos anos, o último desenho do Bolsa Família continha o pagamento de um benefício básico, de R$ 89. e outros variáveis, de acordo com número de filhos e mulheres gestantes e lactantes, por exemplo. Além disso, havia um benefício calculado individualmente, voltado especificamente para as famílias mais vulneráveis.

Ainda que alvo de críticas, o Bolsa Família tem méritos que o tornaram referência mundial em termos de ações de transferência de renda. O programa é bem focalizado e, por isso, custa pouco (cerca de 0,5% do PIB). Isso faz com que ele acabe trazendo um retorno maior para a economia na comparação com outras medidas de assistência social, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e até mesmo que a Previdência.

O programa, mesmo com falhas e denúncias de fraude, trouxe resultados concretos. Uma análise feita pelo Ipea sobre os 15 anos do Bolsa Família mostrou que houve redução de 25% da extrema pobreza em 25% e de 15% da pobreza nesse período.

A repaginação para o Renda Brasil não foi a primeira alteração feita pelo governo Bolsonaro na área. No ano passado, a gestão pagou um 13.º benefício às famílias. Além disso, enquanto o Ministério da Cidadania esteve sob comando de Osmar Terra, havia um entendimento de que o principal objetivo do programa, que seria complementação de renda, estava desvirtuado.

Na época, a pasta informou que “devido às frequentes mudanças no cenário econômico, o programa necessita passar por um redirecionamento”. Técnicos do ministério vinham se debruçando “em estudos para aperfeiçoar a gestão do programa e os processos de inclusão, exclusão e manutenção de famílias na folha de pagamento, com o objetivo de beneficiar os que realmente precisam”.

Para 2020, o programa encolheria e não havia garantia de pagamento de benefício extra. Mas, a pandemia mudou tudo e a implantação do auxílio emergencial, que produziu efeitos muito positivos na economia, acabou impulsionando a reformulação do programa.

Para 2021, o governo já previa uma ampliação do programa, com orçamento de R$ 34,8 bilhões e atendimento de 15,2 milhões de famílias.

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